
Um dos assuntos mais controversos da
Revolução Francesa, provavelmente o mais difícil de todos, tem a ver com
o papel que a Maçonaria nela desempenhou. As opiniões vão, neste
assunto, do zero ao infinito, e ora é atribuída à Ordem Maçónica um
papel central e decisivo, fosse na preparação de uma conspiração e uma
conjura para fazer eclodir o furor revolucionário contra a Família Real,
fosse na transmissão dos valores que a inspiraram, ora lhe atribuindo
um estatuto de algoz, responsável pelas mortes de Setembro e do Terror,
ora fazendo dela uma vítima entre as muitas que sucumbiram sob os golpes
incontáveis da guilhotina. Não me apetece dizer, como é comum neste
género de polémicas históricas, que a verdade se encontrará algures no
permeio das duas extremidades. Sou – confesso-o de imediato – mais
propenso à tese de que a Maçonaria foi devorada por uma revolução que
apenas ajudou a preparar pela influência do pensamento dominante da
época, pensamento, de resto, que não era nem uniforme, nem
originariamente seu, nem, tão-pouco, partilhado unanimemente entre os
seus membros – os Irmãos -, e para a qual somente contribuiu pela acção
individual de alguns maçons, mas nunca em função de qualquer plano
pré-estabelecido. Em contrapartida, não hesito em afirmar que muita da
Maçonaria que hoje conhecemos – concretamente a que está sob a órbita do
Grande Oriente de França – foi visceralmente influenciada pelos valores
saídos da revolução, entre eles o anti-clericalismo, a laicidade, o
republicanismo e o igualitarismo. Por outras palavras, não foi a
Maçonaria que influenciou a Revolução, mas a Revolução que influenciou a
Maçonaria.
Existem dificuldades
metodológicas intransponíveis na convicção de que a Maçonaria foi
determinante numa conspiração revolucionária na França de 1789. A
primeira é óbvia: não houve uma mas, pelo menos, quatro Revoluções
Francesas, entre 89 e 99, e cada uma das que se ia seguindo devorou
apressada e violentamente a anterior. A primeira dessas revoluções foi
aristocrática e constitucional, por um lado partidária do Duque de
Órleans (Grão-Mestre do Grande Oriente de França, bem sei e já lá
iremos...), por outro simplesmente defensora de um sistema de monarquia
constitucional com Luís XVI, segundo o modelo inglês, ou, preservando a
monarquia, seguindo os passos do constitucionalismo liberal
norte-americano. Nesse período pontificam homens como La Fayette,
Mirebeau, Barnave, entre outros. Alguns eram maçons, como terá sido o
caso do primeiro e do segundo, outros, como Barnave, sobre quem recaiu
também essa suspeita, estão hoje, como eles, ilibados pela maioria dos
historiadores, visto o seu nome não constar de nenhum quadro das lojas
onde foi referenciado (sobre Barnave vd. Albert Soboul, La Franc-Maçonnerie et la Rèvolution Française, Annales Historiques de la Rèvolution Française,
1969, nº 3). Em todo o caso, na Assembleia Constituinte saída do Jogo
da Péla, calcula-se que perto de 200 deputados seriam maçons, num total
de cerca de 1177. Iso não significa, todavia, que esses deputados
estivessem irmanados de um qualquer plano revolucionário-maçónico, de
que tivessem sido incumbidos por um qualquer directório secreto. Os
tempos eram de excessivo fervor para tamanha contenção.
A segunda revolução – a
Revolução Girondina – foi burguesa, defensora dos direitos de
propriedade, monárquica e constitucionalista, por convicção, e
parcialmente regicida, por necessidade, ainda que só a Convenção tenha
decidido sobre o destino de Luís XVI. Dos deputados da Assembleia
Legislativa deste tempo, calcula-se que mais de 200 fossem maçons, num
total de 745. Muitos dos chefes girondinos eram igualmente maçons, como
Brissot, segundo se crê, membro da loja Les Neuf Soeurs, também
frequentada por Danton e Desmoulins, cuja acção foi, todavia,
determinante em levá-lo, a Brissot e ao directório girondino, ao
cadafalso... A terceira revolução, jacobina, teve também protagonistas
maçons, entre eles, segundo se acredita, os seus chefes principais,
Georges-Jacques Danton e Maximilien Robespierre. Ainda que este último
não fosse devoto obediente da Ordem, frequentara em Arras, na juventude,
a loja Hesdin, enquanto Danton e outros, como Desmoulins e Hérbert,
sejam tidos como obreiros da célebre loja de Paris Les Neuf Soeurs. Isso
não logrou, todavia, que a célebre «harmonia maçónica» reinasse entre
eles, ao ponto dos três últimos – Hérbert, Desmoulins e Danton, terem
visto as suas vidas findarem na guilhotina, por acção do primeiro. E o
mesmo sucedeu no ciclo seguinte da Revolução Thermidoriana, na qual
padeceram, por sua vez, os maçons Robespierre e Couthon, entre outros
também, às mãos de maçons, alguns deles que, tal como eles, pertenciam
até ao Comité de Salvação Publica, como, segundo parece, Collot
d’Herbois e o próprio Barras.
Não obstante a polémica sobre a
filiação maçónica de muitos destes homens (há quem afirme que não
existem provas seguras da ligação à Maçonaria de nomes como o próprio
Mirebeau e até mesmo de Danton), a verdade é que essa é uma questão
desnecessária para se poder avaliar a importância da Ordem Maçónica nos
momentos determinantes da Revolução. Na verdade, a tese favorável mais
radical inclina-se para afirmar que a Revolução foi obra da Maçonaria e
que se desenrolou consoante os seus planos. Ora, isso é desmentido pela
evidência dos factos e pela lógica das coisas. Primeiro, não houve «uma»
revolução, mas uma sequência de golpes e contra-golpes que levaram à
sucessão e destituição de diferentes grupos políticos no poder, assim
como à instauração de regimes políticos também eles desiguais nos
valores estruturantes. Por conseguinte, nada disto era planificável e
foi andando ao sabor dos acontecimentos e dos protagonismos individuais e
de pequenos grupos dirigentes, e a factos muitas vezes comprovadamente
acidentais. Segundo, porque se alguma coisa caracteriza os dez anos da
Revolução foi o facto dela ter, como dizia premonitoriamente Vergniaud, «como Saturno, devorado os seus filhos»,
ou, utilizando linguagem maçónica, devorado muitos dos seus irmãos. Por
outras palavras, não se vê possível um complot maçónico (ou outro
qualquer) que traçasse um plano tão caótico quanto o foi a sucessão de
acontecimentos da Revolução Francesa, nem se imagina que os homens que
eventualmente o tivessem gizado semelhante tragédia quisessem ser suas
vítimas pela sua própria morte e pela morte de muitos dos seus amigos.
Não é, pois, razoável imaginar que os acontecimentos da Revolução
Francesa fossem susceptíveis de um plano pré-concebido, menos ainda que
tivesse sido imaginada e executada por quem quer que fosse, menos ainda
pelas suas sucessivas vítimas.
Ainda que a maior parte dos
historiadores do tempo e da primeira parte do século XVIII (entre eles
Michelet e Blanc) quase a não refiram elhe não dêm relevo, a tese da
influência maçónica na Revolução é práticamente contemporãnea dos
primeiros acontecimentos revolucionários, e é devida ao Abade Lefranc,
um dos mais de 180 padres assassinados nos massacres de Setembro de 92,
que, nesse mesmo ano, publicou um livro extenso intitulado Conjuration
contre la religion catholique et les souverains, dont le projet conçut
en France doit s’exécuter dans l’Univers entier, no qual defendeu a
tese de que fora a Maçonaria a autora da Revolução. Lefranc foi seguido
na literatura anti-maçónica e anti-revolucionária pelo célebre Abade
Augusto Barruel, que, em 1798, publicou o seu não menos célebre livro Mémoires pour servir à la histoire du jacobinisme.
Estas obras ajudaram a criar a ideia da existência de uma conspiração
vinda de fora da França contra a França e as monarquias europeias, que
originou a Revolução, da qual seria responsável a Franco-Maçonaria
francesa, enquanto mero tentáculo espúrio da «sinistra» Ordem dos
Iluminados da Baviera, os célebres Illuminati que ainda hoje enchem
páginas imensas da literatura «histórica» fantasiosa, como são o caso
dos folhetins de David Brown (sobre as teorias históricas conspirativas,
entre elas as que envolvem a Revolução Francesa e a Maçonaria, os
Illuminati e os Templários, vd. a interessante obra de Nicholas Hagger, The Secret History of the West, 2005).
É evidente que, quanto mais não
fosse, o facto destas obras contemporâneas da Revolução a envolverem com
a Maçonaria, obriga-nos a não ser ingénuos e a perceber que a Maçonaria
não terá sido um elemento absolutamente neutro no curso dos
acontecimentos, embora isso não faça dela, como acima já adiantámos, um
agente particularmente activo da Revolução. Vejamos, então, se estes
dois aspectos são ou não conciliáveis entre si.
Comecemos pela constatação de
uma evidência: a Maçonaria tinha, muito antes dos primeiros
acontecimentos da Revolução, uma expressão forte na sociedade francesa,
principalmente nos centros urbanos, como Paris, onde a Revolução
verdadeiramente eclodiu. As primeiras lojas em solo francês (não
necessariamente «francesas», como veremos já em seguida) surgiram logo
após 1717 e á fundação, nesse ano ocorrida, da Grande Loja de Londres, a
casa-mãe da chamada moderna Maçonaria Especulativa ou Filosófica, em
contrapartida à Maçonaria Operativa dos artesãos e construtores de
templos e catedrais vinda do final da Idade Média e do período do
Renascimento. Em 1735 eram inúmeras as lojas de origem inglesa (e também
escocesa) sediadas em França, ao ponto de, contrariando as intenções
hegemónicas dos ingleses, ter sido proclamada a necessidade de nomeação
de um Grão-Mestre próprio para França. A 24 de Junho de 1738, reunidos
numa assembleia geral de maçons, foi instituído o cargo de Grãp-Mestre
Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino de França, cargo confiado ao Duque
d’Antin, e foi criada a Grande Loja de França (a denominação formal é,
contudo, apenas de 1765). Em 1743, em virtude da morte do primeiro
Grão-Mestre, é nomeado para o cargo o Irmão Conde de Clermont, um
Bourbon e aristocrata, primo de Luís XVI, ao qual se sucede, em 1772, o
Irmão Duque de Chartes, mais tarde, Duque d’Orléans, no cargo agora
designado de Sereníssimo Grão-Mestre da Ordem de França, Ordem essa
designada, desde esse ano, por Grande Oriente de França. O novo
Grão-Mestre, que atravessou os acontecimentos de 89, ficou célebre, mais
tarde, com o epíteto de Philippe-Egalité...
Antes de entrarmos na suposta
«conspiração orléanista» a que Philippe deu azo, segundo a qual uma
conjura maçónica-revolucionária teria por fim pôr no trono esse primo de
Luís XVI (o que, mantendo-se a tese conspirativa, desvia, contudo, o
seu foco da conspiração jacobina e republicana), uma nota somente para
dizer que, antes do começo da Revolução e até ao surto da emigração
aristocrática, a Maçonaria francesa era sobretudo composta pela
aristocracia citadina e pela alta burguesia, à qual se juntava um número
expressivo de padres católicos (sobre a presença de padres católicos na
Maçonaria do tempo da Revolução, vd. o interessante trabalho de
doutoramento de José A. Ferrer Benimeli, Arquivos Secretos do Vaticano e a Maçonaria: História de uma Condenação Pontifícia,
1976). A Maçonaria francesa não era, por conseguinte e pela natureza de
quem a compunha, um antro de conspiradores que quisessem destruir a
nobreza francesa, o clero e, muito menos ainda, implantar a República.
Sobre os sentimentos republicanos dos primeiros revolucionarios
franceses, vale a pena recordar que Desmoulins disse, pouco antes de
morrer, que em 1789, na Tomada da Bastilha, os republicanos não seriam,
em França, mais do que meia-dúzia (o próprio Robespierre só se confessa
republicano pouco antes da queda do Rei e, mesmo assim, com grandes
cautelas e hesitações). Ou seja, a deriva republicana de 92, 93 e 94 não
estava manifestamente no espírito dos revolucionários de 89, menos
ainda dos maçons dessa altura. A Maçonaria era, assim, nesses tempos
primevos da Revolução, um ponto de convergência entre a nobreza e a alta
burguesia e o clero, na qual se debatiam, sem dúvida, as «novas
ideias», sobretudo as que eram veículadas pelos Enciclopedistas, mas não
propriamente onde se preparasse uma conspiração com a finalidade de
retirar do vértice do poder político e social as pessoas e as ordens
sociais que efectivamente a compunham. Alguns exemplos para melhor
ilustrar o que aqui fica dito: a Loja Les Amis Réunis, fundada em 1786,
era composta, no seu período aúreo, por 68 obreiros, dos quais 3 padres,
22 burgueses e os restantes aristocratas; a La Nouvelle Union contava
com 70 membros, dos quais 19 nobres, 8 padres e os demais pertencentes à
burguesia próspera de Paris. Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas
há um facto inquestionável: dos sans-culottes, a verdadeira
«vanguarda revolucionária», não encontramos o mais ténue vestígio nos
quadros dos obreiros das lojas. Em contrapartida, muitos dos membros
proeminentes da Maçonaria francesa emigram ainda antes de 92 (alguns,
por sinal membros proeminente, logo em 89), outros são presos ou mortos
(veja-se o caso da célebre Princesa Laballe, amiga privilegiada de Maria
Antonieta – também ela tida, por alguns historiadores, como membro da
maçonaria feminina -, que foi morta nos massacres de Setembro, do mesmo
modo que o padre Lefranc, e que chegou a ser Venerável da loja «Le
Contrat Social»), sendo que a maioria das lojas abate colunas em 91 e em
92, após o 10 de Agosto, o que denota o seu claro afastamento dos
caminhos republicanos e regicidas seguidos pela Revolução.
Tratemos, então agora, do caso
particular de Philippe-Egalité, Grão-Mestre do Grande Oriente de França,
indiscutível pretendente ao trono em substituição do seu primo Luís
XVI, e a cujas influências se imputam muitos dos primeiros
acontecimentos revolucionários. Parece hoje inquestionável que, apoiado
por homens como Mirebeau e Choderlos de Laclos e, até - há quem o
sustente - pelo próprio Danton, o Duque de Orléans conspirou contra o
seu primo e gastou nessa actuação uma verdadeira fortuna, ele que era o
segundo maior proprietário do reino, imediatamente a seguir a Luis XVI.
Estas eram, pelo menos, as suspeitas de Luís XVI e, sobretudo, de Maria
Antonieta, que votava a Philipe uma desconsideração muito particular,
embora hoje se acredite que a sua participação no fomento do fervor
revolucionário não teve a dimensão, pelo menos nas ruas de Paris, que
alguma historiografia lhe concedeu. É certo que ele foi, como já vimos,
Grão-Mestre do GOF, mas parece também que a sua proximidade à Maçonaria
era mais honorífica e formal do que material. O verdadeiro
administrador-geral do Grande Oriente foi, por esses tempos e até 1789,
quando emigrou para Inglaterra na sequência dos primeiros acontecimentos
revolucionários (e, nesse mesmo ano, para Lisboa, onde veio a morrer), o
émigré Sigismond de Montemorency-Luxembourg, adversário declarado do
Duque d´Orléans e fiel partidário da Monarquia (na melhor das hipóteses,
Constitucional...), que queria ver protagonizada por Luís XVI e não
pelo seu duvidoso primo. Deste modo, poderemos concluir que os
acontecimentos que levam até 1789 ultrapassam qualquer conspiração da
Maçonaria, ou de uma loja maçônica, que pudesse ter sido concebida em
favor das pretensões de Orléans. Esta, a ter existido, muito rapidamente
perdeu fôlego e foi ultrapassada, pouco tempo depois de 14 de Julho,
pela radicalização popular e sans-coulotte do processo revolucionário.
Após a queda do Rei e o fim da Monarquia a 10 de Agosto de 92, o pobre
Duque tornou-se uma figura verdadeiramente patética e transformou-se no
absurdo Citoyen Égalité, ele que ainda no começo desse ano tentara uma
reconciliação com Luís XVI, apenas frustrada pela intransigência, mais
do que justificada, diga-se, do Rei. Caído em desgraça, foi preso a 6 de
Abril de 1793, ainda pelo regime do Primeiro Terror. Em estado de
desespero, o pobre homem tentou mesmo desmarcar-se do seu passado
maçônico (o que demonstra bem que essa não era uma qualidade apreciada
pela nova República), demitiu-se do cargo de Grão-Mestre a 5 de Janeiro
de 93, e publicou uma deplorável carta de contrição no Jornal de Paris, a
22 de Fevereiro seguinte, pedindo desculpa por ter sido maçon nestes
termos: «Não conhecendo a maneira pela qual se compõe o Grande Oriente e
não devendo haver, na minha opinião, nenhum mistério e nenhuma
assembléia secreta numa República, sobretudo no princípio do seu
estabelecimento, já não quero envolver-me em coisa nenhuma do Grande
Oriente, nem saber das assembleias de franco-maçons». O acto foi-lhe de
nenhuma utilidade, já que a lâmina da guilhotina lhe trataria
competentemente do pescoço a 6 de Novembro de 93.
Parecendo, assim, evidente, que a
Maçonaria, enquanto organização, não participou num «plano» para
realizar a Revolução Francesa, plano esse por si mesmo impossível de
gizar, fica então pendente a possibilidade de ela ter sido, através das
lojas, o veículo de divulgação das idéias revolucionárias, sobretudo do
pensamento dos Philosophes. Se parece pacífico que Diderot, Rousseau e o
próprio Condorcet (que teve um triste fim, como é sabido, nas prisões
do Terror) foram maçons, e se as lojas terão servido para, por um lado,
promover a aproximação social e até política da nobreza dominante e da
burguesia ascendente, e, por outro lado, para que estas pessoas
partilhassem, entre si, de uma considerável liberdade de expressão e de
opinião no espaço maçónico, que lhes era socialmente muito mais reduzida
antes de 89, a verdade é que muitos dos elementos tipológicos da
idiossincrasia filosófica de alguma Maçonaria posterior, concretamente
da francesa, não a influenciavam nesse tempo e foram adquiridos muito
depois. Referimo-nos, muito concretamente, ao anti-clericalismo, ao
republicanismo e até ao princípio da laicidade. Antes e imediatamente
após o começo da Revolução, a Maçonaria francesa era monárquica, parte
dela aceitava os valores estruturantes do Ancien Régime, embora a
maioria fosse adepta do reformismo constitucional. Esta era a
influência vinda de Inglaterra, mas, sobretudo, dos Estados Unidos, país
inequivocamente fundado por maçons, que Lafayette trouxera e fizera
plasmar no texto da primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
aprovada em 2 de Outubro de 1789 pela Assembleia Nacional. E que
valores são esses? São os da liberdade e da igualdade civil, do primado
da lei, da propriedade, da necessidade da contenção do poder soberano,
da Constituição, da separação de poderes, etc.. São ideias que, em bom
rigor, provêm, em parte, do Iluminismo inglês e escocês, mais até do que
do Iluminismo francês patente nas obras de Rousseau. Não por acaso, a
defesa da ditadura de Robespierre – um fanático admirador de
Jean-Jacques, haveria de fazer-se para além, ou mesmo contra estes
valores e contra esta Declaração e a Constituição de 91, que é sua
legítima filha. Por outro lado, os valores que, mais tarde, marcariam
parte da Maçonaria de França, entre eles o anti-clericalismo e o
jacobinismo republicano, não podem atribuir-se ao pensamento maçônico do
tempo da Revolução. Voltaire, o grande filósofo anti-clerical, seria
feito maçon a 7 de Março de 1778, menos de três meses antes de morrer, a
30 de Maio desse ano. Voltaire, anti-clerical e anti-católico toda a
sua vida, terá querido morrer católico (segundo Carlos Valverde, que
exibiu o número de Abril de 1778 da revista francesa Correspondence Littéraire Philosophique et Critique,
onde está publicada uma declaração do filósofo anunciando a sua
conversão e a sua confissão a um padre católico, o Padre M. Gautier),
pelo que não terá procurado a Maçonaria para a tentar influenciar com um
anti-clericalismo que já não possuía, como alguns autores defendem,
obviamente sem qualquer sustentação. Não é igualmente correcto
atribuir-se a Constituição Civil do Clero a qualquer influência
maçônica, já que essa intromissão da política na Igreja de França se
pode inscrever mais nos conflitos seculares entre os Estados católicos e
a Igreja, de que a História de França é rica (vejam-se, por exemplo, os
Papados de Avinhão e os conluios que a política internacional
estabeleceu em torno do Grande Cisma), como foi rica a História de
Portugal, com as inúmeras excomunhões de reis portugueses, com o
Beneplácito Régio de Pedro I, para além das muitas Concórdias e
Concordatas celebradas entre as autoridades políticas do Estado
Português e a Igreja Católica, com o fim de pôr termo ou de evitar
conflitos recíprocos. Para além disto, o ateísmo que marca hoje alguma
Maçonaria Francesa era claramente rejeitada pelos maçons de então, até
mesmo por Maximillien Robespierre, que tinha profundas convicções
religiosas, e que atacou os herbertistas também pelo facto deles se
declararem ateus (é célebre a fúria de Robespierre pela colocação de
alguns cemitérios da frase «A morte é o sono eterno» devida a jacobinos
partidários de Hérbert).
A questão da República também
não era pertinente na Maçonaria pré e imediatamente pós-revolucionária. A
Maçonaria, quando a República se implantou, praticamente desapareceu e,
antes dela, era praticamente defensora da Monarquia Constitucional e
avessa a uma via revolucionária que rompesse com os princípios
originários da primeira Revolução. No Verão de 93 existiam em Paris 4 ou
5 lojas. No ano seguinte, o principal sustentáculo do que restara do
Grande Oriente e que era seu administrador-geral, o banqueiro Tassin,
foi condenado à morte e executado em Maio. O Grande Oriente desapareceu e
ressuscitou, coxo e débil, com Napoleão, que fez dele um instrumento do
seu poder pessoal, até 1815. Os valores republicanos que hoje o GOF
reivindica, e que não fazem necessariamente parte do patrimônio de
outras Obediências francesas, como as actuais Grande Loja Nacional
Francesa e Grande Loja de França, acabaram por ser incorporados mais
tarde, juntamente com o anti-clericalismo, e seriam pano de fundo da
maioria dos movimentos e das revoluções republicanas européias e
sul-americanas, do final do século XIX e do começo do seguinte. Destas e
de outras questões dogmáticas, como a crença em Deus como o Grande
Arquitecto do Universo, viria a ocorrer o cisma maçônico de 1877 entre a
chamada Maçonaria Regular, de influência inglesa e sob a tutela da UGLE
(United Grand Lodge of England) e a chamada Maçonaria Irregular, ou
tradicional, nos países onde, como em Portugal, tem profundas raízes
históricas, e que orbita em torno da tradição francesa do GOF. Esse
cisma, que continua, hoje ainda, a dividir as Maçonarias do mundo
inteiro, foi sendo gerado com o tempo, e de modo algum se pode dizer
que, nos seus elementos dogmáticos, estivesse sequer latente durante a
Revolução. Diga-se, assim, que neste como noutros temas que hoje a
marcam, a Maçonaria francesa é mais filha do que mãe da Revolução
iniciada em 1789 e declarada como finda em 1799, por Napoleão Bonaparte.