Guerra dos Emboabas
A
Guerra dos Emboabas foi um confronto travado de
1707 a
1709, pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro, na região das
Minas Gerais, no
Brasil.
O conflito contrapôs, de um lado, os desbravadores vicentinos, grupo
formado pelos bandeirantes paulistas, que haviam descoberto a região das
minas e que por esta razão reclamavam a exclusividade de explorá-las; e
de outro lado um grupo heterogêneo composto de portugueses e imigrantes
das demais partes do
Brasil, sobretudo da
Bahia, liderados por
Manuel Nunes Viana – pejorativamente apelidados de “emboabas” pelos paulistas –, todos atraídos à região pela febre do ouro.
Em novembro de
1708 Cachoeira do Campo, distrito de
Ouro Preto, foi um dos palcos do sangrento conflito envolvendo os direitos de exploração de ouro na futura Capitania de
Minas Gerais.
Este episódio não foi todo esclarecido ainda, sendo que há várias passagens obscuras.
[editar] Os emboabas
Logo que a descoberta do ouro se espalhou, milhares de pessoas
imigraram para a região, ficando pejorativamente conhecidos como
"emboabas". O significado exato dessa palavra
indígena, provavelmente
tupi, é controversa.
Para algumas fontes, referia-se ao fato de que os imigrantes protegerem as
pernas[1] e os
pés com botas e rolos de panos, ficando parecidos com aves designadas por tal nome
[carece de fontes].
Outros referenciam como
galinhas calçudas[2].
Segundo o
Dicionário Houaiss,
emboaba seria a junção das palavras tupis
mbo ("fazer que") +
aba ("ferir"), sendo que
mbo'aba seria um epíteto coletivo, aplicado a um grupo, e não apenas a um indivíduo. Assim, "os que invadem, agridem".
O tupinólogo
Eduardo de Almeida Navarro sustenta que "emboaba" é um termo
tupi que significa "mão peluda", através da junção dos termos
mbó ("mão") e
ab ("peludo"). Seria o nome que se dava aos portugueses em
Minas Gerais no século XVIII
[3].
A corrida pelo ouro atraiu para a região cerca de 50 mil pessoas "que
fervilhavam à beira dos rios e caminhos, nos sertões distantes e
inóspitos".
[1]
Os
bandeirantes
se denominaram com maiores direitos sobre o ouro das minas, seja por
eles serem os descobridores do lugar, ou seja, pelo fato daquela região
fazer parte da capitania de
São Vicente, assim como pelas sucessivas rejeições da Coroa e reveses em
Palmares e guerras de açu
[4]. Prova disso foi petição da
Câmara de São Paulo, de
7 de Abril de
1700,
que requereu que a outorga do território aurífero fosse exclusivamente
pelas autoridades desta capitania. Teve papel no conflito o protetor de
Manuel Nunes Viana,
Pascoal da Silva Guimarães.
Enquanto isso, os colonos da
Bahia e de
Pernambuco
estavam muito mais ligados aos portugueses que aos paulistas. Os nomes
que trocaram entre si mostravam suas diferenças. Os da terra eram
chamados de "nômades", ou "bandoleiros sem lei", apelidaram os
estrangeiros de
emboabas, incluindo os vindos de outras
capitanias. Os baianos e pernambucanos e os outros considerados
estrangeiros ficaram do lado dos portugueses.
Para os paulistas, aqueles que não participaram dos esforços na procura de ouro não deveriam ter os mesmos direitos na
exploração.
A tensão entre os paulistas (também chamados de vicentinos) e os demais
exploradores crescia, motivada pelo aumento no fluxo populacional e
pela insistência dos paulistas e emboabas de controlarem a região
[1].
Apesar de se misturarem pelas regiões povoadas das minas, paulistas e
emboabas não se uniam, ao contrário, se juntavam cada grupo com um
representante. O ex-
bandeirante Manuel de Borba Gato era o líder dos paulistas, enquanto os emboabas eram liderados por
Manuel Nunes Viana, português que veio para
Bahia jovem, e era conhecido por atos de coragem que o trouxeram para a região onde era proprietário de lucrativas minas.
Outra causa da guerra seria o alto preço dos mantimentos, inclusive pela limitada oferta em ocasião do aumento da demanda
[1]. Os comentários de
Antonil em
1709 o provam e se tornou clássico o trecho em que relata
"a
abundância de mantimentos e de todo o usual que hoje há nas Minas e do
pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos»: um
alqueire de farinha em São Paulo custava 640 rs, mas em Minas 43.000 rs!
E assim por diante, uma libra de açúcar 120 réis em São Paulo e 1200
nas Minas, uma galinha de 160 para 4.000 rs, etc. Eliane Teixeira Lopes
cita em sua obra um ensaio de Eduardo Frieiro, “
Feijão, angu e couve” de
1966 que corrobora os acontecimentos. E J. Soares de Mello, em seu livro «
Emboabas», de
1979, página 48, comenta:
«Foi na época da fome como medida de prudência que Artur de Sá concedeu a Amaral Gurgel
o estanco ou monopólio dos açougues. Não tardaram nada os abusos. O
povo foi esmagado. E quando o monopólio chegou aos seus anos derradeiros
e veladamente começaram as transações para o prorrogar, os paulistas se
levantaram.»
Por carta, o Rei, para suprir a falta de
gado, ordenara a
D. Álvaro conceder a maior parte possível das terras entre o Rio de Janeiro e a
serra dos Órgãos «com a obrigação de cada um dos donatários
de pôr um curral de gado dentro de dois e até três anos no sitio que se
lhes der, por se entender que com a fertilidade destas terras abundarão
as capitanias em gado.» Mas nada era assim tão simples… Em
1702 o governador D.
Álvaro da Silveira e Albuquerque
fizera doação, aumentando o domínio de Muribeca, no Espírito Santo,
propriedade do colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro, fundado no século
XVII em terras doadas pelo Conde de Castelo Melhor, e que em
1701
possuía apenas 1.630 cabeças de gado - enquanto isso suas fazendas no
Rio e em Santa Cruz, Campos dos Goitacases e Campos Novos de São João em
1701 teriam 20 mil.
Foram baldadas, de
1702 a
1705, as providências do governador da
Bahia, D.
Rodrigo da Costa,
para obstar a emigração que das províncias beira-mar se estava dando
para as minas descobertas no atual Estado de Minas, principalmente vinda
da
Bahia,
donde se transportavam muitas pessoas com seus escravos. D. Rodrigo
estabeleceu diversos presídios no interior para apreensão de escravos
que fossem conduzidos para as minas. O ouro foi a pedra iman, uma
veemente atração: e formaram-se dois partidos, o dos paulistas e o dos
emboabas. O historiador
Diogo de Vasconcelos comenta:
«paulistas
e taubateanos teriam declarado talvez guerra pela posse de terrenos em
Minas se não surgissem os forasteiros, inimigo comum que os amedrontou e
uniu.» Do reino, vinha o exemplo - formado de senhorios e conselhos
autônomos, fabricado aos poucos e aos pedaços, federação de distritos
fundidos pela política e nacionalizados pela História. Quando no Brasil
as capitanias passaram a ser incorporadas à Coroa, ao Governo direto do
Reino, o fizeram na forma por que de antes existiam, não se tinha
concebido a ideia abstrata e consolidaria da pátria: forasteiro, para a
gente Paulista, ou quase inimigo, era o natural de outras províncias,
porque entendiam pertencer-lhes domínio exclusivo das minas por eles
descobertas e povoadas no sertão.»
[editar] O conflito
Pintura representando a Guerra dos Emboabas.
Datam de
1706 as primeiras dissensões no arraial da Ponta do Morro, depois do Rio das Mortes, pela
"morte injusta e tirânica que fez um paulista de um humilde forasteiro que vivia de uma pobre agência".
Outro cronista diz por haver alguns índios carijós embriagados matado
um português. Diogo de Vasconcelos, por sua vez, descreve:
"Viajando
por ali uns carijós para São Paulo, entraram a beber na venda de um
novato reinol; rivalidade era tema assentado de todas as conversas; os
carijós começam a falar de reinóis, defendidos pelo novato, pouco
experiente, entre a bebiba, houve altercação, e no ardor da discussão,
foi morto o português pelos carijós. Fugiram estes, e houve dois dias de
batida para os descobrir - voltaram os do arraial, os moradores
tinham-se reunido e determinado enviar ao Rio uma comissão de
procuradores pedir a D. Fernando Martins Mascarenhas Lencastre compadecer-se da situação e lhes mandar autoridade para reprimir malfeitores e bandidos."
Em
1707, no
Arraial Novo do Rio das Mortes,
dois chefes importantes dos paulistas foram linchados pelos emboabas.
Com medo de uma vingança, fugiram para a mata, ficando apenas um pequeno
grupo na resistência. Os paulistas, apesar de terem motivos para agir,
limitaram-se a enterrar seus chefes, e não enfrentaram os emboabas. Isso
encorajou os emboabas que haviam fugido para a mata a voltar e a não
mais se aterrorizarem com os paulistas.
Não se deve pensar, segundo os historiadores, que estava em jogo
apenas o ouro: «Intervieram também criadores de gado e não apenas
mineradores emigrados de São Vicente. Os criadores reagiram ao sistema
de contratos com o objetivo de assegurar, com exclusividade, o
fornecimento a açougues de animais para o abate e de arbitrar a venda da
carne ao consumidor.
Em
1708, um choque inevitável aconteceu, e os dois lados voltaram a guerrear.
Manuel de Borba Gato interveio, banindo
Nunes Viana da região do
Rio das Velhas,
porém, sem sucesso. Várias tentativas de acordo foram feitas, todas
infrutíferas. Os emboabas tomaram a iniciativa de desarmar todos os
paulistas que encontravam, com o pensamento que estes preparavam um
grande ataque contra eles. Houve pouca resistência, e ao fim de
1708 os emboabas já tinham o controle de duas das três áreas de mineração mais importantes. Os paulistas refugiaram-se na região de
Rio das Mortes.
Os emboabas reuniram-se e proclamaram
Nunes Viana governador da região mineradora, um afronta ao rei o único a ter a prerrogativa para a escolha
[1]. Em seguida, os emboabas encarregaram
Bento do Amaral Coutinho da expulsão dos paulistas restantes. Os paulistas não opuseram resistência, e recuaram mais uma vez, desta vez para
Parati e
São Paulo.
[editar] Capão da Traição
O mais trágico e emblemático episódio da
Guerra dos Emboabas ficou perpetuado na história como
Capão da Traição. Após a derrota dos paulistas na batalha campal de
Cachoeira do Campo, estes se renderam e foram anistiados com a pena de se retirarem da região das minas. Vários paulistas pararam em um capão
[5] na região situada próxima aos Arraiais da Ponta do Morro (próximo à atual
Tiradentes) e Novo de Nossa Senhora do Pilar (atual
São João del-Rei),
provavelmente na região da antiga Fazenda do Córrego. Talvez tivessem
os paulistas a intenção de reorganizar a sua tropa e marchar novamente
contra os Emboabas, agora em guerra de cerco, ou guerra de tocaia.
O exército "Emboaba" encontrava-se também nas imediações. Os
paulistas enviaram então alguns índios cativos para averiguar a posição
dos Emboabas e atraí-los para uma emboscada no capão. A estratégia
funcionou e o exército dos Emboabas marchou em direção da armadilha
paulista, sendo recebido a tiros e muitos de seus caindo vitimados de
disparos vindo de cima do arvoredo.
Mas houve o contra-ataque por parte dos emboabas comandados por
Bento do Amaral Coutinho.
Após ver tombar seu negro de confiança, Bento reorganizou seu exército
em linha e marchando para trás todo o destacamento Emboaba ficou fora da
alça de mira dos paulistas. Estes por sua vez viram-se cercados e
resistiram bravamente por dois dias, até solicitarem a trégua e a
rendição a Bento do Amaral. Este chefe Emboaba chegou a jurar pela
Santíssima Trindade
que após a rendição e deposição das armas dos paulistas, não os mataria
e expediria livre conduto para estes seguirem para fora da região das
minas.
Mas, após a rendição e entrega das armas, Bento decretou o massacre
de todos os cerca de 300 paulistas capturados. Agindo como um traidor, e
perpetuando a derrota final aos paulistas no
Capão da Traição.
[editar] Derrota dos paulistas
O confronto terminou por volta de
1709, graças à intervenção do governador do
Rio de Janeiro,
Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, que destituiu Nunes Viana e manteve a estrutura administrativa emboaba
[1].
Sem os privilégios desejados e sem forças para guerrear, os paulistas
retiraram-se da região. Sua última tentativa de expedição punitiva
contra os emboabas foi derrotada no
Rio das Mortes. Muitos deles foram para o oeste, onde mais tarde descobriram novas jazidas de ouro, na região dos atuais estados do
Mato Grosso do Sul,
Mato Grosso e
Goiás.
[editar] Testemunhos
[editar] Bento Furtado Fernandes de Mendonça
Relato clássico dos descobrimentos das Minas Gerais, a "Notícia dos
primeiros descobridores das primeiras minas de ouro pertencentes a estas
Minas Gerais, pessoas mais assinaladas nestas empresas e dos mais
memoráveis casos acontecidos desde os seus princípios", escrita pelo
"coronel das três vilas",
Bento Furtado Fernandes de Mendonça, falecido em 1765, e filho de um dos mais notáveis bandeirantes dos primeiros anos das minas:
Salvador Fernandes Furtado. Esse relato faz menção à
Guerra dos Emboabas e permite inferir o estado de espírito daquela época:
"
Correndo os tempos em 1709 para 1710 houve o pernicioso
levantamento de que em seu lugar daremos notícia dos ingratos filhos da
Europa contra os famosos descobridores destes haveres, para remédito de
tantos desválidos Europeus, e contra os Paulistas, não menos empregados
nos mesmos descobrimentos e benefícios aos mesmos ingratos; nome este de
paulistas odioso entre aqueles, que não os puderam imitar, nem deixar
de receber destes favores, que os constituíram ingratos; próprias ações a
que a arroja a inveja, em que não permanecem merecimentos e sobra a
ambição de senhorear o alheio por meios violentos, ou mesmo razoáveis
[...] Neste estado se achavam as Minas correspondendo o rendimento ao
custoso trabalho dos mineiros com rendosas conveniências, aumentando, de
cada vez mais, o concurso dos negócios e do povo, e do povo de várias
partes, e maiormente filhos de Portugal, entre os quais vieram muitos
que sendo mais ardiolosos para o negócio quiseram inventar contratos de
vários gêneros para mais depressa, e com menos trabalho encherem as
medidas, a que aspiravam da incansável ambição, como foi um religioso
Trino, cujo nome não faltará quem diga com outro religioso, o chamado
Frei Conrado, que atravessaram os negociantes antes de entarem nas Minas
[...] Defenderam os paulistas, e alguns dos mais bem intencionados
Reinóis, que o não conseguissem; motivos estes, por que foram concebendo
um ódio mortal aqueles ambiciosos a estes defensores do bem público, e
geral de todos os habitantes, que queriam, fossem oprimidos com tão
pernicioso enredo de ambição. Fomentou este ódio com mais rigor o poder,
e respeito, que os paulistas lograriam como pessoas principais, e
fundadoras as povoações e aumentadas em riquezas e venerações dos
favorecidos: coisas que aumentam a inveja, e confirmam o mais fino, e
inveterado ódio. Não há dúvida de que muitos Paulistas, observavam
pacíficos, humanados ao bom trato, e favor dos Reinóis, recolhendo-os em
suas companhias, favorecendo-os em tudo, e aumentado-os dos baixos
princípios, com que às Minas chegavam. Havia contudo alguns Paulistas
que levados da sua soberania de respeito queriam tributos de adorações,
como era sobre todos Jerônimo Pedroso de Barros, como foi notório, e seu irmão Valentim Pedroso de Barros, suposto este por elevados brios, e caprichos do príncipe, que de maldade".
[6]
[editar] Borba Gato
O melhor relato sobre os acontecimentos saiu da pena do Superintendente
Borba Gato, que escreveu longamente ao Governador D.
Fernando Martins Mascarenhas Lencastre em
29 de novembro de
1708, das minas do Rio das Velhas:
«Muito tempo há que em profecia escrevia a Vossa Senhoria que se
não podia tratar nestas Minas do bem comum, menos da arrecadação da
Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde, nem da dos defuntos e
ausentes, sem que houvesse nelas Infantaria. Agora posso afirmar que
para se poder tratar destes (Ilegível) não se necessita menos que um
exército, porque se foram os homens que entraram pela estrada proibida
da Bahia desaforando de sorte que já cada vez que querem fazer um motim
ou levantamento, para isso tem eligido cabos neste distrito e dado
senhas, que não há mais que dá-la um para todos estarem juntos. Isto tem
dobrado três vezes depois que saiu desta terra Cristóvão Correia
Leitão. Foi a primeira vez que um bahiense que meteu um comboio em sua
casa tão publicamente, em tão claro dia, que parece o acusava a sua
consciência em que eu lho havia de ir confiscar, porém mal o podia fazer
se nem por pensamentos tive notícia disso. Tratou de juntar gente,
prevenir armas e não devia ser para me entregar o comboio. É incrível
que seria para me descompor ou para me matar. Como não fui a sua casa,
desvaneceu-se desse levantamento de que não tive notícia senão depois de
se terem passado muitos dias.
Depois disto tive notícia certa que de umas razões que teve Jerônimo Pedroso de Barros com Manuel Nunes Viana
se originaria uma ruína muito grande, porque para que sucedesse assim
tinha aquele convidado não só os parentes que tinha no distrito mas
ainda a seu irmão Valentim Pedroso de Barros
nas Minas Gerais e tinham passado palavra que em uma segunda-feira se
haviam de achar todos no Caeté. Deu-me esta notícia em que cuidar pelo
primeiro do bem comum e inquietação de um povo que alvoroçado sempre
traz consigo estragos que dão que sentir, resolvi-me a fazer os editais
que envio a Vossa Senhoria para que, ausentando-se Manuel Nunes Viana
com um pretexto tão honrado se evitassem as ruínas que podiam suceder.
Também com a consideração de que este homem e a sua vinda a estas Minas
era tão prejudicial à Fazenda de Sua Majestade que Deus guarde, porque
não tem mais exercício no Rio de São Francisco que esperar comboios da
Bahia de uma grossa sociedade que tem naquela cidade, e tanto que lhe
chegam, não se contenta com marchar com estes para as Minas, senão
convir servindo de capitania aos mais comboios, para que nenhum seja
tomado do inimigo que nesta conta tem a quem trata da arrecadação da
Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde. Tanto que tem feito o seu
negócio nestas Minas, passa palavra a todos os que aqui se acham com
ouro para ir por aquela estrada proibida sem pagar quintos que se
aparelhem para tal dia; juntam-se todos e se vão com ele, reconhecendo-o
por seu General, querendo disfarçar tudo isto que é tão público com vir
dar o ano passado entrada a 47 cabeças de gado, como Vossa Senhoria se
pode informar de Cristóvão Correia Leitão, e este ano de 46, que nem se
cansou em a vir dar a esta oficina senão mandar.
Postos os editais, foi êle logo ao arraial do Caeté donde estavam a
tirá-los, como Vossa Senhoria verá da carta a qual lhe mandei esta
resposta, mas não deixei de ficar considerando o que poderia obrar,
porque se tomava aquela resolução em virtude do Capítulo 17 que Sua
Majestade foi servido dar no Regimento para o Governo destas Minas e por
ver quão prejudicial era este homem nelas à Fazenda do dito Senhor;
lembrando-me também do Capítulo 1° em que tanto recomenda Sua Majestade
que Deus guarde o cuidado que se há de por em atalhar as discórdias que
houver não só entre Mineiros, mas ainda entre outras quaisquer pessoas
que se achem nestas Minas, saí de minha casa para o Caeté para que,
quando não pudesse dar a execução o capítulo 17, tratar de usar do
primeiro. Chegando àquela parte antes do dia que se tinha destinado, já
achei algumas ruínas que faziam as tropas que se ajuntavam. Tinham morto
dois negros do dito Manuel Nunes Viana e feito outras hostilidades.
Tratei de aquietar tudo, fazendo amigo a Jerônimo Pedroso de Barros com
Manuel Nunes Viana quando para este efeito fui a sua casa achei nela
toda a gente que tinha deixado neste Rio das Velhas e Saberabusu.
Composto tudo, fiz jornada para minha casa donde vim saber como cá
se tinha feito um levantamento ou motim, sendo cabeças dele certos
homens que tenho em lembrança, entrando pelas casas dentro as pessoas
que achavam os acompanhavam senão os haviam de matar, com o que não ia
por vontade faziam ir à força, ficando tudo isto despejado, metendo-se
tudo em casa de Manoel Nunes (Viana) sem se lhe dar do Edital que tinha
posto para que o não fizessem. Como nós não podemos ter maior fiscal das
nossas culpas que as nossas consciências, estas cabeças de Motim parece
que considerando no mal que tinham obrado em andar obrigando a força os
homens para serem contra os Paulistas, sucedendo uma noite vir um
cunhado de Jerônimo Pedroso de sua casa a Saberabuçu, que não é longe,
dizem que a procurar um pouco d ouro que de certa ciência sei havia
mister para pagar a outro Paulista que ia para povoado, que lhe tinha
emprestado, e pelo não achar mandou dizer à pessoa que lhe vinham uns
barris de aguardente, lhos vendesse logo por qualquer preço que fosse;
começaram disto a formar argumento, porque se achavam na consulta frades
e clérigos, e diz que colheram de conclusão por consequência certa que
aquilo era para matarem aqueles que publicamente foram cabeças do motim,
e irem-se embora que por isso é que passaram de noite e mandavam pela
manhã vender a fazenda fosse pelo que fosse. Com este pretexto fizeram
outro levantamento, e o que não acudia a este motim o iam tirar a sua
casa, e faziam assistir nele, e houve uns que tiveram sentença de morte.
Chegado Manuel Nunes Viana do Caeté, não deixando bahiense nem
outro homem algum dos que não eram Paulistas, diz que resolveram matarem
alguns Paulistas nomeados e os mais fazê-los despejar sem que ficasse
nenhum, e o que repugnasse matarem-no também. Esta desordem diz que a
mexeram frades e clérigos, também dizem que houve outros que sem dúvida
deviam de ser mais bem intencionados que rebatendo esta fúria, vieram em
que se moderasse a sentença que foi ficarem os Paulistas sujeitos a
leis que queriam estabelecer os Bahienses: que são de que nenhum
Paulista nem negro seu entre de noite em arraial de homem da Bahia, e
que fazendo-o serão mortos sem que por isso sejam obrigados a pagarem os
escravos; que de dia não pudessem trazer mais que dois pagens; e outras
proposições semelhantes que em se dando a imprensa se se venderem
enviarei a Vossa Senhoria. Que isto seja castigo de Deus com evidência
se mostra, porque qual havia de ser o bahiense por mais poderoso que
fosse que entrasse cá nestas Minas se não fora o amparo que tinham nos
Paulistas, que eu com o meu pagem o não confiscasse, nem qual era o
pobre que chegava aqui para poder estar com sossego se não fosse valer
do arraial de algum Paulista. Não sinto eu que os Bahienses façam isto
aos Paulistas, para que eles abram os olhos e reparem que são justos
juízos de Deus que para se porem e oporem contra as ordens de seu Rei a
quem tanto amor devem, diziam que os Bahienses não eram só seus
amparados senão seus filhos. O de que me fico lastimando é o que tenha
de seguir daqui as ruinas que isto há de causar, e o prejuízo que há de
resultar à Fazenda de Sua Majestade que Deus guarde. Estes dois
(ilegível), Senhor, deve Vossa Mercê ponderar muito, como tão amante do
serviço de Sua Majestade, que Deus guarde, para que lhe possa dar o
remédio que parecer mais conveniente, que aqui, da sorte que isto está,
não se pode devassar e menos proceder contra ninguém de que resulte
utilidade à Fazenda de Dua Majestade dando cumprimento às suas reais
ordens. (....) A pessoa de Vossa Senhoria Deus guarde muitos anos com os
aumentos e Estado que está merecendo. Minas do Rio das Velhas, Manuel
de Borba Gato.»
Este documento está na Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo de
Marinha e do Ultramar, docs 3212 a 3225 do Rio de Janeiro. Borba Gato é
assim o primeiro historiador dos emboabas. Tumultos e dissensões
paralisaram as Minas, extinguiram trabalho e anularam colheitas. Só se
cuidava da guerra e os moradores estavam reduzidos à miséria. Não era
entretanto chegado o momento de descerrar ao Governador quanto sabia.
Escreveu não para acusar mas para apurar responsabilidades.
[editar] João da Veiga da Costa
João da Veiga da Costa, que era mestre de campo do Terço dos auxiliares das Capitanias da vila de Nossa Senhora da Conceição de
Itanhaém, escreveria em
19 de abril de
1719:
«Certifico que havendo despejado destas Minas a maior parte dos
nativos da vila de São Paulo e suas anexas, pela alteração do povo,
ficamos assistentes nelas cento e tantos mineiros e lavradores e por uma
voz falsa de que vagavam nos matos da Itatiaia
600 homens de armas dos nossos naturais para fazerem guerra aos
frausteiros, nos ameaçavam estes, de sorte que suposto tínhamos
sujeitado nossas armas em nome de Sua Majestade debaixo de cuja tutela
supunhamo-nos seguros, era tal o temor com que nos atemorizavam que
determinadamente desertamos também as ditas Minas, deixando ao desamparo
nossas fazendas de plantas, instrumentos de minas e terras minerais, e
tendo notícia deste fato Rafael da Silva e Souza,
a quem os ditos frausteiros tinham obrigado que por serviço de Sua
Majestade exercesse posto de capitão, não podendo capacitá-los a que não
ocasionasse a nossa total saída destas ditas Minas, mandou logo alguns
próprios a Manuel Nunes Viana,
a quem os frausteiros tinham feito seu capitão-regente, protestando
pela grande perda que receberia Sua Majestade nos seus reais quintos,
com a retirada de tantos mineiros e povoadores e advertindo-lhe os
melhores meios para evitar perda tão considerável, com cujo parecer
ordenou o dito Manuel Nunes Viana a todos os cabos dos ditos frausteiros
que impedissem com gravíssimas penas a que se não molestassem os
homenss da Serra Acima que nestas Minas assistiam na obediência em que
estávamos pelo zelo e inteligência e capacidade que reconheceu no dito
Rafael da Silva e Souza lhe ordenou que por nossos sítios e Fazendas nos
visitasse e capacitasse com a segurança de proteção em nome deua
Majestade que se deixassem ficar quietos e sossegados em seus sítios e
Fazendas, tratando de todas as suas conveniências pois lhes prometia
toda a segurança de suas vidas e Fazendas, o que logo fez assim o dito
Rafael da Silva e Souza com muito grande zelo e cristandade, discômodos
de sua pessoa e Fazenda, em cujo respeito e conhecida lealdade no
serviço de Sua Majestade nós resolvemos a ficar em nossos sítios e
moradas, e foi este um dos serviços pelo qual merece que Sua Majestade o
honre e premeie por ser o mais útil que se fez à conveniência dos seus
Reais Quintos. Passa o referido na verdade pelo juramento dos Santos
Evangelhos e por me ser pedida esta, lhe mandei passar por mim assinada,
em Minas Gerais.»
[editar] Bento do Amaral Coutinho
Estátua em Caeté em homenagem a liderança de
Nunes Viana na Guerra dos Emboabas.
Datada de
16 de janeiro de
1709
temos uma carta, escrita do arraial de Ouro Preto por Bento do Amaral
Coutinho e enviada a D. Fernando Martins Marcarenhas Lencastre - e por
tal carta demonstra que não seria facinoroso como a história quer,
porque o governador não se corresponderia amistosamente com um fora da
lei. Diz nela:
«Sem embargo que aos pés de Vossa Senhoria em toda a ocasião só
desejo ser anunciador de paz, nesta forçosamente o hei de ser de Guerra,
para dar parte a Vossa Senhoria do levantamento que agora sucedeu em 20
de dezembro nestas Minas Gerais, tomando armas todos os moradores
destes arraiais e do campo contra os naturais da vila de São Paulo e
serra acima. Poucos dias antes deste, havia sucedido o primeiro, nos
arraiais do Caeté e Sabará das Minas do Rio das Velhas, causado de uma
avançada que ao capitão maior Manuel Nunes Viana
fora dar a Valentim Pedroso, para recuperar um desaire da espada em que
seu irmão Jerônimo Pedroso havia ficado de pior com o dito
Capitão-Maior, para o que foi incorporado de um tumulto de 600 armas,
acompanhado do mesmo irmão, de José Pompeu, de Leão Leite e de outros
muitos parentes e amigos como além disso guarnecido de mais armas, que
chegando ao Caeté lhe foi levar em socorro o Tenente Manuel de Borba Gato
seu tio, administrador daquelas Minas que, devendo como mineiro usar
dos meios mais equivalentes para evitar a ruína e atalhar a desordem que
sucedeu, o fez pelo contrário, excitando o incêndio até chegar a mandar
fixar editais nas portas das Intendências, feitos em seu nome e
firmados por sua mão, que nenhum morador ou forasteiro desse favor ou
ajutório ao dito capitão-maior com pena de proceder contra êles e lhe
serem confiscados os bens, só para que ficasse vencedor seu sobrinho.
Mas como durante esta prevenção fosse tão considerável a perda e o saque
se dece (?) aos moradores que se avirigua não se restituir com cinco
arrobas d ouro. Condoídos estes tanto da perda como da sem razão que
viam se queria usar com o Capitão-Maior, conspiraram no levantam/ com
dois mil armas, despejando violentamente aos agressores, matando a um
José Pardo, Paulista, por insolências que fez, e ultimamente, tirando as
armas a todos os Paulistas, como instrumentos de suas desordens e mau
viver, além de outras capitulações que assentaram, fazendo corpo de
Milicia, até recorrem a Vossa Senhoria e a Sua Majestade considero
fariam já.
Com este repente despejados Jerônimo Pedroso
das Minas do rio das Velhas e outros mais que lá eram moradores,
apostaram a estas Gerais, e logo de caminho deram um tiro a um dos moços
moradores do campo, irmão do Padre Manuel Pires, por sair ao caminho a
livrar a uma vaca sua dos cais, e fazendo daí passo para o sitio de Pascoal da Silva,
lhe disseram era mui acomodado aquele campo para uma couteda ou marca, e
recolhidos a Joatiaia, em poucos dias houve notícia que juravam os
Paulistas passar a ferro frio todos os Emboabas, que assim chamam aos
nossos portugueses assistentes por aqui, estilo entre êles na conquista
do gentio mui antigo. Mas não parando aqui a coisa e começando a fazer
varias preparações de armas cada dia, em um foram vistas na Joatiaia
400, em outro grande número que se não pode contar no Rio das Pedras,
todos Paulistas, e havia vários dizeres sobre o caso, até que se rompeu
uma voz que os Paulistas, vendo o desigual partido que tinham no Rio das
Velhas com os nossos, por serem muitos e viverem já guarnecidos de
Milicia e acautelados, conspiravam dar uma noite a saquear e destruir
êstes arraiais do Ouro Preto e Antônio Dias, matando tudo o que pudessem
matar por serem mais importantes e estarem desprevenidos de liga e de
Milicia; e nestas considerações do que se dizia viviam já muitos com seu
receio. Alguns do povo em praticas particulares já capitulavam mas
debaixo disso havia parecer de maduro conselho que os divertia por ser
infausto o motim, de que se não serve Deus nem El-Rei, e comumente parto
de muitas desgraças, parecendo melhor acerto ir vendo ainda com o tempo
os sinais e indicios mais eficazes, até que, fazendo-se exatas
diligências para se alcançar daqui a verdade, constou por cartas que se
apanharam fazerem-se certas todas as demonstrações passadas, e
ultimamente um homem de serra acima, bem poderoso e apotentado, falando
em particular com certa pessoa, lhe disse que fôra convidado para o
mesmo efeito, porém se não queria meter nessas alhadas. E com o último
desengano que neste particular se colheu das ditas cartas, se levantou
este povo do Ouro Preto e logo a uma fala o arraial de Antonio Dias, e
dai a poucas horas o campo, com que se elegeu neste Ouro Preto um
capitão que governasse de Armas e Guerra que se esperava: e como na
noite seguinte ao dia do levantamento se mandou pôr fogo a êste arraial
pelas duas (horas) depois da meia noite por dois bastardos e um negro
fora da parede de um rancho junto ao punho de uma rede que estava armada
daquela parte de que ardeu grande parte, queimando-se nove ranchos de
mercadores que se avaliou em grande perda. E fora se se queimaram 16
arrobas de polvora que estavam neles. Se coligiu que de respirador da
prevenção do levantamento, antes que tivesse o intento efeito, mandaram
fazer a queima sendo público haver sido o agressor um Fernando Pais,
paulista, que logo se foi retirando e pondo de largo, mandando depois
dizer Valentim Pedroso que se não queixassem dele senão de Pais, que era
o que mandara pôr fogo ao arraial. E para confirmação de tudo por outra
carta que se alcançou alguns dias depois e aberta se viu que dizia por
formais palavras Vossa Senhoria estiveram a culpa em não fazer-se o
efeito a seu tempo, que já agora é tarde…»
[editar] Junta no Rio de Janeiro
Em
16 de janeiro de
1709 houve Junta no Rio:
"Aos
16 dias do mês de Janeiro de 1709 nesta cidade de S.Sebastião do Rio de
Janeiro, nas casas de Sua Majestade que Deus guarde onde assiste D.
Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro, governador e capitão geral
destas Capitanias, estando em Junta com o Ilustrissimo Bispo D.
Francisco de São Jerônimo, o Mestre de Campo Francisco Ribeiro, o
Desembargador Antônio Luís Peleja, o doutor juiz de fora Hipólito Guido,
o provedor da Fazenda Real Luís de Almeida Correia e Albuquerque, o
procurador da Coroa João Mendes da Silva, o doutor Manoel Correia
Vasques, juiz e ouvidor da Alfândega, e o capitão Marcos da Costa da
Fonseca Castelo Branco, almoxarife da Fazenda Realito governador foi
apresentada carta do Tenente General Manuel de Borba Gato de 29 de novembro de 1708
em que lhe dá conta do estado em que estão as minas, onde estão como em
guerra viva os paulistas com armas uns e outros nas mãos, acometendo-se
com grande número de armas de parte a parte, havendo levantamentos,
ruínas e inquietações de sorte que se seguirá uma total ruína não só de
uns e outros assistentes das minas mas também uma gravissima perda à
Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde, não so para o seu reino mas
também para os moradores desta cidade, pois com esta inquietação e
tumulto tem estado e está impedido todo o negócio das minas. Para evitar
tão grandes perdas e ruinas pedia ao dito Governador lhe pusesse o
remédio de sorte que se aplace esta furia e atual estrago que necessita
do maior respeito e do maior poder, pois de outra sorte nao se
conseguiria o sossêgo daquele Povo amotinado; e vendo o dito governador
que Sua Majestade que Deus guarde por carta de 31 de janeiro de 1702
lhe ordena que não vá às minas nenhum governador desta Praça sem ordem
especial sua, o que só limita havendo algum acidente em que se não possa
esperar ordem; e que da omissão em acudir-lhe com remédio prontamente
se lhe daria culpa: propôs se este serviço atual das minas se
complicaria no caso do acidente de que fala a dita carta de Sua
Majestade, e assim se devia nesta ocasião o dito governador ir
pessoalmente às minas para atalhar, sossegar e remediar tão iminente
ruina de que se seguem mui prejudiciais consequências ao Reino, Fazenda e
vassalos de Sua Majestade e por todos uniformemente foi dito que, visto
o trabalhoso estado das minas, a carta e ordem de Sua Majestade se
compreende o caso dela o presente sucesso das minas e que era
conveniente passar a elas o dito Governador para com sua presença,
respeito e podia atalhar tanta ruína, sossegar aquele levantamento e
motim para que todos os assistentes das minas vivam em quietação e
sossêgo e se continue o negócio que por este acidente tem cessado e está
impedido, o que, visto pelo dito Governador, abraçando o voto e parecer
de todos, se resolveu e assentou passar às minas com brevidade para os
efeitos referidos e pelas razões ponderadas; de que mandou o dito
Governador fazer este Termo que todos assinaram. O Secretário Bartolomeu
de Siqueira Cordovil o fez.»
O Governador decidiu portanto partir a 2 de março, pois precisou de
um mês para os preparativos de uma jornada que imagina penosíssima -
tempo de chuvas, caminhos intransitáveis, colheita longe, gastos
excessivos.
[editar] Consequências
Mapa do
Brasil após a Guerra dos Emboabas.